Em outra reportagem, Correio Braziliense afirma: irmãos Viana praticam política assistencialista de adversários que combateram.
AGÊNCIA
AMAZÔNIA
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BRASÍLIA — Novamente, em duas páginas — as de números
2 e 3 — o Correio Braziliense coloca
a nu a forma dos irmãos Jorge e Tião Viana, ambos do PT, fazerem política no
Acre.A primeira página diz: “Tião e João são os novos coronéis do Acre”.Segundo o texto, o governador (ex, na
verdade) Jorge Viana e o senador Tião Viana construíram a carreira política
atacando o assistencialismo praticado pelos antigos adversários. Dez anos
depois, os dois petistas elogiam os velhoscaciques e Tião faz uso eleitoral da distribuição de benefícios sociais
à população.
O Correio havia
revelado, ontem, o estilo de Tião Viana fazer política. Revelou que o senador apresentou uma emenda
individual de R$ 3 milhões para financiar a compra de 1,8 mil cadeiras de
rodas, muletas e bengalas para pessoas com deficiência em 20 dos 22 municípios
do Acre. O senador participou da entrega dos equipamentos no período
pré-eleitoral e já início da campanha para as eleições municipais, em julho. Em
Epitaciolândia, a solenidade foi suspensa por quatro horas pela Polícia
Federal, a pedido da Justiça Eleitoral. Mas as cadeiras foram entregues.
Ainda de acordo com o Correio, o episódio de distribuição de cadeiras de rodas em
município do Acre enfraquece apoio a Tião Viana na corrida pela Presidência do
Senado.A revelação do caso, segundo o
jornal, afastou o DEM e o PSDB da candidatura de Viana.
CONGRESSO
Há 10 anos, os irmãos Tião e Jorge Viana combateram o assistencialismo dos velhos caciques do
Acre.Hoje, elogiam antigos adversários.
E o senador passou a usar métodos eleitorais parecidos.
Os novos
coronéis
Tião Viana (e) durante distribuição de cadeiras de rodas em Epitaciolândia (AC) em julho deste ano / ALEXANDRE LIMA
LÚCIO VAZ DA EQUIPE DO CORREIO
A distribuição de benefícios sociais à população em
atos políticos, feita pelo senador Tião Viana (PT-AC) e revelada pelo Correio
na edição de ontem,é uma prática antiga no Acre.Em março de 1998, o então
governador Orleir Cameli (PFL) entregava cestas básicas,máquinas de costura e
motores de popa em praça pública durante a pré-campanha pela reeleição.Pressionado por representação do Ministério Público, Cameli desistiu da
reeleição. O adversário Jorge Viana (PT) foi eleito governador.Hoje, os Viana
dominam a política do Acre, com a adesão dos antigos adversários, que são
elogiados nos palanques. Entre eles, Cameli.
Na pré-campanha para o governo, em 1998, Jorge Viana temia pela própria vida,
mas fazia duros ataques ao então governador. “Nós não temos um governo, temos
um desmonte. É o fantasma do descaso, da humilhação, do cartel. São grupelhos
de pessoas que se organizaram e atuam como bandos. Tudo isso coordenado por um
governador que não tem um currículo, mas uma folha corrida. Só não vou ser
candidato se me matarem”, afirmou Jorge, em abril daquele ano.
No ano passado, no lançamento da pavimentação da estrada entre Feijó e Sena
Madureira, na BR-364, ao lado de Cameli, Jorge Viana saudou o novo aliado:
“Durante décadas, muitos políticos usaram a estrada como palanque, mas o Orleir
foi o primeiro a sair dele e a dar início à pavimentação da BR-364”. Tião Viana
completou: “Quero dizer da minha alegria de estar ao lado do ex-governador
Orleir Cameli e do seu irmão Eládio, nesse momento de desafio. Um desafio que é
do tamanho da nossa história”.
Jorge Viana nega que exista hoje uma aliança com Cameli. “O governo não tem
nenhuma aliança. O que tem é que ele se manifestou favorável a um candidato do
PR, que nós apoiamos em Cruzeiro do Sul. E tem um sobrinho dele que é deputado
federal pelo PR, e o PR está na aliança do governo federal e do Acre.” O
ex-governador petista diz que houve uma adesão: “Houve um processo de
pacificação. A aliança se ampliou, mas não a partir de concessões. O que houve
é adesão a um projeto que está dando certo”.
O adversário mais radical do governo Jorge Viana, o ex-deputado federal Narciso
Mendes, diz ter abandonado a política. “A gente cansa. No Acre, não tem mais
eleição. Aqui tem compra de voto. Aqui, uma eleição é feita na base de mercado
eleitoral. Eu fui a única pessoa que teve a coragem de enfrentar o governo de
Jorge Viana. O resto era um bando de calça frouxa, como continua sendo. Daqui a
dois anos, a eleição do Tião Viana não é eleição, é uma nomeação.”
Narciso poupa o governador Binho Marques (PT). “Quando vêm trazer denúncia
contra o governo, eu digo que deixei de ser delegacia de polícia. Agora, o que
eu posso dizer é que ele é um cidadão absolutamente decente.” O jornal de
Narciso, O Rio Branco, agora divulga os releases produzidos pelo governo
petista. Questionado se o seu jornal e a sua televisão têm recebido
publicidades do governo, responde: “Eu não sou hipócrita. Aqui duas coisas têm
que ser respeitadas. Primeiro, a notícia. Depois, isso é uma empresa. No final
do mês, ninguém quer saber se o jornal foi democrático. Eu não tenho
relacionamento com esse povo. Agora, sou obrigado a dizer que o governo é
decente”.
Jorge Viana afirma que Narciso não tem nenhuma relação com o governador ou com
qualquer dirigente do PT. “O que acontece é que o senhor Narciso, contra quem
eu tenho mais de 50 processo na Justiça, resolveu mudar de posição e dizer que
não é mais um militante político do partido dele. Mas não é aliado nosso nem
será, porque nem ele quer nem a gente quer”, diz. “O Acre mudou, mas as
situações emblemáticas permanecem as mesmas. Eu vou pagar pelo resto da vida
por ter tomado algumas atitudes naquela época, porque algumas pessoas estão
presas, outras estão com muita raiva de mim.”
Em março de 1998, Orleir Cameli foi flagrado entregando os produtos dos
programas O Pão Nosso e Novo Horizonte em Sena Madureira, distante 150km de Rio
Branco. O primeiro programa foi criado no ano eleitoral. O então governador
pretendia entregar 5 milhões de quilos de alimentos de março a dezembro. Seriam
30 mil cestas básicas por mês. A distribuição seria controlada por uma cartela.
Em Sena Madureira seriam 1,2 mil sacolões. Em Rio Branco, mais 15 mil. O Novo
Horizonte previa a entrega de 2 mil máquinas de costura, mil máquinas de farinha,
2,2 mil motores de popa, beneficiadoras de arroz e kits para agricultores. Com
base na representação feita pelo procurador eleitoral do Acre, Ricardo
Nakahira, o Tribunal Regional Eleitoral suspendeu os programas em 21 de abril
daquele ano.
O Correio tentou contato por telefone e por e-mail com o governador Binho
Marques, mas não houve resposta. A assessoria de imprensa do senador Tião Viana
afirmou que ele estava no interior do estado, sem contato por telefone.
Mudança de discurso
“Nós não temos governo, temos um desmonte. São grupelhos que se organizaram
e atuam como bandos (...) coordenados por um governador (Cameli) que não tem um
currículo, mas uma folha corrida”
Jorge Viana, em abril de 1998
“Quero dizer da minha alegria de estar ao lado do ex-governador Orleir
Cameli e do seu irmão Eládio, nesse momento de desafio. Um desafio que é do
tamanho, talvez, da nossa história”
Tião Viana, em dezembro de 2007
Entenda o caso
Moradores de Epitaciolândia recebem cadeiras de rodas /ALEXANDRE LIMA
Tião explicou por que participava das solenidades de entrega dos equipamentos:
“O secretário de Saúde me chamava. Aí, eu ia junto fazer a entrega”. A emenda
individual, no valor de R$ 3 milhões, foi apresentada para o Orçamento da União
de 2006, mas o dinheiro não foi liberado naquele ano. Os pagamentos ocorreram
de março a julho de 2007. A entrega dos equipamentos começou somente no fim de
março deste ano, sendo concluída em 27 de julho, nos municípios de Tarauacá,
Jordão e Feijó, sem a presença dos candidatos a prefeito locais.
Em Epitaciolândia, a solenidade teve a presença do prefeito José Ronaldo (PSB),
da prefeita de Brasiléia, Leila Galvão (PT), do senador Tião Viana e outras
autoridades locais. Foram distribuídas 135 cadeiras de rodas, sendo quatro
motorizadas. Após a entrega dos equipamentos, por volta das 8h30, o senador já
se retornava para Rio Branco quando foi informado de que a PF havia chegado ao
local.
Ele retornou e foi abordado pelo delegado federal Augusto Rézio. Foi informado
de que havia chegado à Justiça Eleitoral uma denúncia de que estaria havendo
uso político da entrega dos equipamentos. Tião foi até o juiz eleitoral,
Leandro Gross, e argumentou o programa já tinha execução orçamentária no ano
anterior. Por isso, estaria de acordo com a legislação eleitoral.